sábado, 26 de maio de 2018

Fora de controle.



Fora de controle. Por Gustavo Conde


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De Gustavo Conde, no 247.
Essa greve dos caminhoneiros já entra para a história como a mais onerosa para o país. Nunca uma greve custou tanto em tão pouco tempo. E isso é fácil de explicar: um governo amador que mal consegue fazer a gestão básica dos modais públicos do país, não conseguiria mesmo administrar uma crise de verdade, com os agentes que escapam ao núcleo das chantagens comezinhas de Brasília.
As imagens de milhões de litros de leite sendo derramados por falta de transporte são muito fortes. Esse tipo de representação visual entra com muita força no imaginário popular. A primeira criatura a perceber isso atende pelo nome de Rede Globo. Ela sabe que a situação escapou ao controle e corre para obter o domínio simbólico deste princípio de catarse social.
Este é o negócio principal da Rede Globo. Não é novela, não é futebol, não é reality show: é a posse da narrativa simbólica que organiza a vida social do país. Imagens adicionais chocantes como filas quilométricas de carros para abastecimento, supermercados vazios e racionados, caos no trânsito, desabastecimento generalizado, são a matéria-prima de um jornalismo que produz muita receita pressionando e protegendo governos, num morde-e-assopra visceral e chantagista.
O problema é que esse volume de imagens não é mais exclusividade desta ‘senhora’ de 55 anos que domina a receita publicitária no país. Elas ganham as redes e seguem um curso no limite do imponderável. A Globo, no mínimo, tem que lutar mais por essa propriedade visual.
Noves fora, a greve de caminhoneiros é um produto sensacional. Fosse no governo Dilma, já teríamos um milhão de manifestoches invadindo a Avenida Paulista com suas selfies insuportáveis ao ao lado de policiais, caminhoneiros e frentistas de postos de gasolina.
‘Pena’ que o governo de agora é o governo Temer. Com Temer, a Globo não sabe muito bem como proceder. Criminosos, em geral, se respeitam. A rigor, a Globo está acumulando energia para as eleições. Sabe que o candidato ideal ainda não apareceu e teme que ele não apareça nunca.
Mas o mais interessante dessa história toda é que o mercado entendeu o nível de submundo intelectual que habita o governo que ele patrocina com docilidade e esmero. Sem meias palavras: investidores ficaram de queixo caído com a desorganização do governo na gestão da política de preços da Petrobras, estopim evidente da greve.
Quando o investidor fica desconfiado, parceiro, é melhor pegar o banquinho e cair fora. Ainda mais em um governo que depende do investidor como o cachorrinho feliz depende do rabo. Eles estão chocados com a incompetência do governo. O valor dos prejuízos que essa greve imporá ao sistema é de difícil precisão. Mas é da ordem de um dígito gordo do PIB e isso já é consenso.
A paralisação de produção de veículos é o termômetro da catástrofe. Não tenho memória de um anúncio desse tipo, nem no regime militar, nem no governo Sarney, nem no desastroso segundo mandato de FHC, a referência histórica mais recente de catástrofe gerencial.
Os investidores usaram uma palavra forte para a situação política do governo Temer: esfacelamento. Quando palavras assim aparecem de maneira espontânea, é porque realmente a realidade tomou um novo e desconhecido rumo.
A essa altura, o mercado, que pode ser tudo nesse mundo mas não é bobo, já deve estar fazendo contas. Deve estar lembrando de como Lula gerenciava crises desse tipo: com muita conversa e muita lábia – e relativa transparência.
Esse sentimento – do mercado – é muito perigoso para o golpe. E entendo que seja esse o cálculo que Lula faz e ninguém entende: mais cedo ou mais tarde, os investidores irão querer alguém com cérebro de volta ao poder.
Essa agenda de desinvestimento – que nome horrível –, de venda de ativos, de política suicida de preços é algo que corrói o próprio sistema por dentro. O mercado, por assim dizer e num espasmo de lucidez relativa, vai entendendo que sem um governo forte, a movimentação do capital não acontece.
É meio paradoxal, mas o mercado é como o inconsciente: não tem vínculos morais com absolutamente nada, muito menos com princípios teóricos do neoliberalismo. O mercado quer dinheiro em movimento, fenômeno sem o qual não existe o lucro nem o acúmulo desse lucro.
Uma greve de caminhoneiros no Brasil tem a representação perfeita para esse dilema: é o transporte de riquezas que ficou estancado e em meros cinco dias arrasou a economia do país, com prejuízos incalculáveis.
Afora as coincidências terríveis (o nome do líder dos caminhoneiros é Dilmar, um piloto de Fórmula Truck) e as improvisações grotescas, essa greve marca o momento mais dramático do governo Temer. Nem o escândalo da JBS gerou tanta tensão e tanta insegurança na cúpula golpista Temer-Padilha-Moreira.
A performance de Pedro Parente, Rodrigo Maia, Eduardo Guardia e demais agentes da subserviência confusa também mereceu o prêmio Framboesa de Ouro. Poucas vezes vi um governo bater tanta cabeça – nem nos ‘áureos’ tempos de FHC.
O desfecho desse capítulo do golpe ainda não está definido. O problema central é que o movimento grevista não tem um líder. A palavra dos negociadores do movimento vale tanto quanto a palavra do governo: nada. Isso deixa a conjuntura relegada a uma deriva inédita: de completamente imprevisível, o cenário passou a ser completamente inacreditável.

sábado, 19 de maio de 2018

O pastoreio bancário do rebanho latino.



O pastoreio bancário do rebanho latino. Por Nilson Lage

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Bancos são instituições que o assediam quando você prospera, juram amor eterno quando prosperou e, se você embarca no desvario do romance, tomam-lhe a casa, o carro e as calças antes de lhe cortar o crédito.
“É uma questão de spread”, explicará o gerente. “O risco. Nada pessoal”.
Logo ele, que era tão amigo!
Isso acontece desde tempos antigos, mas há sempre bichinhos presos na rede das aranhas.
Argentinos, por exemplo, são reincidentes. Têm carne macia, Malbec, um mar de petróleo e versos de um tango que vêm a propósito: “Los amigos ya no vienen /Ni siquiera visitarme / Nadie quiere consolarme en mi aflicción”.
É. La cumparsita.
Não dá para rir deles. A Argentina de hoje, como se sabe, é o Brasil de amanhã.
O que dói ver é países tão ricos aprisionados justo pelo fato de serem ricos: quem se daria ao trabalho de prendê-los em rede tão bem tecida, se fossem miseráveis?
Há certa lógica reversa nas civilizações: a cozinha mais criativa é a do país que passou mais fome, a China, e o nosso prato mais requintado, a feijoada, surgiu de escravos, a gente que menos tinha: ricos, sabemos bem, fazem churrasco de boi farto e comem com salada.
Quando a Europa partiu à conquista do mundo, não só era periferia degenerada do extinto império romano em uma Eurásia bizantina, árabe e chinesa, como sofria espasmos de carência pela interrupção da rota da seda, de onde vinham seus luxos: partiu em caravelas, levando canhões, à conquista do mundo com a ferocidade de adictos forçados à abstinência Não fosse isso, seria ainda por muito tempo um conglomerado de feudos que tentavam formar estados, numa região onde a água era escassa e a Igreja guardava em conventos memória e sabedoria. No máximo, trocaria o mel pelo açúcar de Creta e recitaria sonetos petrarquianos.
Os Incas, Maias, Astecas, Cheroquis, Apaches, pelo contrário, eram prósperos, satisfeitos: bastavam-se com flechas, lanças e tacapes.; foi nisso que se perderam.
Ouro e escravos à venda em grandes estoques formavam a riqueza dos impérios africanos: o metal está entesourado em Londres, Nova York e Pequim, os humanos em favelas e a África espera os chineses que talvez não pensem como os banqueiros europeus; tomara que Confúcio ajude.
Houve tempo em que os impérios tinham reis, cortes, exércitos que se confrontavam: dava para explorar as contradições e ir tentando com jeito sentar-se à mesa do banquete dos poderosos.
Agora, parece, não mais. Rei Dinheiro e seu 01%, após aprofundados estudos e com base em sólida doutrina, tomaram o poder diretamente: nomeiam parlamentares e presidentes, falam por toda a mídia e subordinam os comandos dos exércitos do Ocidente. Europa e América obedecem a um conglomerado financeiro só, composto por entes, na maioria, anônimos; desenvolvem, quase sempre, no essencial, estratégia coordenada.
Esse império único não nos deixa ter energia atômica, armas eficazes, comunicação não vigiada, viajar ao espaço, fabricar navios e ter cultura própria. Toma-nos o que está debaixo da terra e dos oceanos. Quer a água dos rios e a força das cachoeiras, dos ventos e do sol que nos ilumina. Mas o pior é que sua tecnologia mais eficiente é tão poderosa que cega nossos olhos, tapa nossos ouvidos, cala nossas vontades.
Bons pastores distraem e aquietam seu rebanho, cuidando que ele esteja atento ao fantasma do lobo, que é, como a psicologia explica, ameaça e tentação.

Corte de verba é tiro fatal na educação, diz especialista




Corte de verba é tiro fatal na educação, diz especialista



Enquanto a China investe maciçamente no ensino superior e só cresce nos rankings internacionais, o Brasil reduziu à metade o orçamento do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações. O resultado? Estamos caindo nesses mesmos rankings.
A  jornalista Sabine Righetti, do blog Abecedário, foi a oitava convidada do Fale, blogueiro, programa semanal de entrevistas com blogueiros da Folha no Instagram Stories.
E foi sobre a educação no Brasil –do ensino básico ao superior– e seus desafios que a conversa caminhou.
Confira os melhores trechos.
Sabine, você está desde 2012 à frente do RUF…Eu brinco que o RUF é meu filho de sete anos, pois agora em 2018 vai ser a sétima edição. Muitos jornais do mundo têm rankings universitários, há cerca de 60 pelo mundo. A ideia é orientar alunos principalmente na escolha do curso de uma instituição. O estudante vê indicadores, o que se fala sobre o curso, como está a empregabilidade, características do corpo docente. O RUF tem servido para muitas outras coisas. Por exemplo, gestores públicos se baseiam muito para tomada de decisões, há impacto do RUF em gestão das universidades, se contratam mais docente ou não. O RUF é um grande retrato do ensino superior brasileiro. Eu visito as instituições, falo com gestores, reitores, explico metodologia, coleto sugestão. Eu visitei todas as 195 universidades (público e privadas) e todas as 2.400 faculdades e instituições do país.
O que explica a queda das universidades brasileiras nos rankings internacionais?O Times Higher Education compara universidades do mundo todo, creio que seja o ranking mais importante. O que ele mostrou é que o Brasil vem num caminho de queda, as boas universidades brasileiras estão caindo. E quem está subindo muito é a China (e depois a Rússia). Das dez melhores universidades dos países emergentes, sete são chinesas. A USP, a melhor brasileira, está caindo nesse ranking. Perdemos dinheiro do MEC (Ministério da Educação), do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (seu orçamento é metade do que era em 2014, descontando a inflação), ou seja, perdemos dinheiro para pesquisa. Já o governo chinês está injetando muito dinheiro nas boas universidades chinesas. No final da década de 90 eles colocaram muito dinheiro nas dez melhores universidades chinesas e agora estão colhendo o fruto. A Rússia tem a meta 5-100, que é colocar 5 universidades entre as 100 melhores do mundo até 2020. Já o Brasil não tem meta nenhuma, a meta é sobreviver e algumas não estão nem conseguindo sobreviver. Todas as federais enfrentam grave crise orçamentária. A UFRJ em setembro do ano passado já não tinha como pagar conta de luz, porque veio pouca verba de custeio (manutenção mínima). A Uerj ficou com quatro meses de salários atrasados. Ou seja, estamos no outro extremo do que faz a China.
A fuga de cérebros está aumentando por conta disso?A fuga de cérebros é um dos fenômenos mais desastrosos dessa crise. A gente forma uma pessoa na graduação, mestrado e doutorado, com dinheiro público, então ela tem que impactar o país, porque ela é altamente capacitada com dinheiro público. O que acontece é que a crise está tão grande que quando os doutores estão se formando no Brasil não há novas vagas nas universidades, institutos públicos, as empresas estão travando investimento em inovação. E aí toda a nossa grande massa de mão de obra altamente qualificada, em idade nova, lá pelos 30 anos, no auge, saem do país no momento que poderiam dar o retorno. E elas são facilmente contratadas por universidades de pontas no exterior. A neurocientista Suzana Herculano-Houzel persistiu muito antes de sair. As pessoas querem ficar no Brasil, pois em muitos casos a pessoa estudou temas nacionais. Outro fenômeno da crise é a evasão dos alunos. Imagina um estudante de baixa renda numa federal, e acontece um corte de dinheiro para custeio (que entra assistência estudantil, bolsa alimentação, bolsa transporte, moradia estudantil). Tem aluno que se não tiver isso ele não consegue chegar na universidade, então ele sai. Muitas vezes era um aluno brilhante que abandona. São dois tiros fatais que estamos dando na educação.
Como funciona abertura de novos cursos?Uma universidade tem autonomia para ter um curso. Já as faculdades e centros universitários precisam ter aprovação do MEC, e isso passa por um protocolo. Se a instituição quiser dar um curso novo e preencher os requisitos, seja em infraestrutura, característica docente, aquele curso será aberto. A abertura de novos cursos não é um problema em si, porque na verdade temos pouca gente matriculada no ensino superior do Brasil. Hoje, em idade universitária (18 a 24 anos), só 15% das pessoas estão matriculadas, seja porque ainda estão no ensino médio, seja porque estão fazendo outra coisa da vida. Então, temos que expandir nosso ensino superior significativamente. Agora, como vamos fazer é uma discussão importante. São apenas 8 milhões de matriculados no ensino superior, de todas as idades. 40% de quem entra no ensino superior está acima da idade universitária. Falta expandir muito para chegar aos 70% de matriculados de países desenvolvidos.
E as taxas de financiamento?A gente trata muito mal nossos estudantes, tanto da universidade pública quanto privada. Para os da privada, o governo lançou, há alguns anos, um grande programa de financiamento estudantil (o Fies). Só que esse financiamento foi sendo reduzido ano a ano e o governo começou a colocar regras, como nota mínima no Enem, começou a restringir áreas e com isso cursos não prioritários perderam o financiamento, começou a restringir condição social da família, então muita gente foi perdendo o financiamento. Essas pessoas ou arrumaram outro financiamento no banco ou na instituição (muitas com juros mais alto) ou elas abandonaram. O índice de evasão está muito alto, o que também é um tiro no pé, pois você tenta expandir o ensino superior, os alunos ingressam, gasta-se dinheiro, a família inteira está engajada no aluno, que é a primeira geração da família no ensino superior, aí no meio do caminho ele perde. Isso é uma frustração muito grande, irreparável. E a gente perdeu um cérebro.
Como você vê o ensino a distância hoje no Brasil?Está crescendo muito. Para se ter uma ideia, dos cursos de pedagogia, metade é a distância. É um curso com muito alunos, muita demanda (é um dos cinco mais em âmbito nacional). Tem muito professor que já está em sala de aula, por isso a demanda por EAD cresceu muito. Um fenômeno recente que está acontecendo, começou com muita intensidade nos países desenvolvidos e agora está forte aqui, são os cursos mesclados. A pessoa faz graduação presencial, mas algumas disciplinas ela pode escolher fazer a distância, algumas mais teóricas, que eu iria para a sala de aula só para ouvir o professor falar. Então algumas instituições começam a oferecer essa possibilidade de modelo pouco híbrido. Se eu fosse falar de tendência, essa é a do momento. Tem quem critique, tem quem elogie, há uma literatura sobre isso.
 Mas como é a qualidade?O ensino a distância tem uma evasão bem grande, é difícil se regrar, ficar em casa estudando, não é todo mundo que consegue. Mas o que se observa é que o aluno que termina é muito bom, porque ele é muito determinado, então já se observou que estudante que conclui a distância tem muitas vezes um desempenho profissional melhor que o presencial. É quase algo como social skills, porque a pessoa é muito batalhadora, concentrada. Inclusive está quebrando o estereótipo do ensino a distância que vem lá dos Telecursos, que seria de quem não quer estudar.
Por que as mães dos brasileiros não conseguem desgrudar de seus filhos?Isso está muito forte no Brasil. Toda vez que participo de congressos internacionais vejo que isso nem é um assunto lá no exterior. As boas universidades dos EUA exigem que os alunos morem na moradia estudantil ou nas redondezas. No caso de Stanford, mesmo que o aluno seja da região, tem que morar na moradia estudantil. Entende-se que precisa romper esse vínculo para fazer a passagem para a vida adulta. E também é necessário estar longe da família para aprender a resolver problema sozinho, na universidade ou na casa. É parte do amadurecimento que a universidade espera. E aqui temos o fenômeno da mãe latina (muitas vezes o pai também) que acompanha o filho, e continua indo discutir os problemas do filho como notas com professores, diretores, explicar falta de alunos. Isso na graduação e pós-graduação. Eu vejo isso, os coordenadores de curso me falam que cada vez mais recebem mais mães aqui. Elas decidem qual estágio o filho vai fazer e leva na porta. Muitas mães vêm tirar dúvida comigo no Abecedário, e não os filhos.
Um estudo sugeriu aumentar a adolescência até os 24 anos.Esse estudo é baseado na ideia de que a última parte cerebral que fica pronta é o córtex frontal, com mais ou menos 24 anos. O que está por trás é que se a gente não tem o cérebro pronto para tomada de decisão de longo prazo talvez tivéssemos que aumentar a adolescência. Mas isso não significa que tenhamos que tratar os filhos como criancinhas.
 Sabine, pensamos muito em Escola Sem Partido e esquecemos de alguns pontos fundamentais da educação aqui no Brasil, não?O que está por trás disso tudo é que a gente não planeja política pública com base em estudos, não olhamos para o que os pensadores de educação no Brasil e no mundo dizem, e de áreas correlatas. A gente ignora tudo o que os cientistas falam e tomamos decisões da nossa cabeça. Por exemplo, isso de acordar mais tarde. Tem uma ampla literatura que mostra que principalmente na adolescência temos uma defasagem cognitiva muito cedo. Não por coincidência, em alguns países desenvolvidos, a escola começa mais tarde. Quer dizer que você fica torturando o adolescente “ai tem que acordar, você é preguiçoso”. No Brasil as escolas começam às 7h. O adolescente dorme na sala, ele está cansado, o cérebro não funciona. Tem explicação biológica, fisiológica. O aluno não vai aprender. Isso realmente tinha que estar em debate. Até porque muitas coisas mudaram. Uma explicação é que a escola pública no Brasil tem dois turnos, mas peraí, se estamos perdendo qualidade de educação então que se construa mais prédios. Outro exemplo é a importância da atividade física para o cognitivo. Na Finlândia, por exemplo, para cada aula grande há um intervalo para atividades físicas. Já no Brasil em certo momento chegou-se a discutir a retirada da educação física da escola, sendo que há uma literatura que aponta a importância no desenvolvimento cognitivo e social. No Brasil, ignoramos a literatura e fazemos coisas da cabeça.
E como você vê o Escola Sem Partido?É exatamente isso. Estamos fazendo política pública achando que estamos na Dinamarca, mas estamos no Brasil. E aqui 1 a cada 5 crianças nascidas são filhos de adolescentes. E não podemos ignorar isso, se você visitar uma escola vai ver uma adolescente grávida. Então precisamos falar de gênero e precisamos falar de educação sexual, porque engravidar é uma questão de gênero. A menina tem que saber que a mulher pode ser empoderada, pode ter uma carreira, para ela saber que escolha ela irá fazer na vida dela. Temos que falar de gênero, de educação sexual. E outra, não tem como não falar. Outro dia eu estava numa escola numa atividade de horta e o professor pediu para o aluno fazer uma coisa e a aluna outra, aí ela: “você pediu para o aluno mexer na terra e eu não porque ele é menino e pode se sujar e eu não”. Já é uma discussão de gênero! Está nos alunos isso, está posto, eles falam. Escola é um ambiente que não se pode proibir discussões.
Quais problemas o Enem enfrenta?Enem surgiu no final da década de 90 como um exame que serviria para o governo avaliar como está o ensino médio e pensar em reformulações. O Enem acabou sendo usado como forma de ingresso, depois veio o Sisu, e cada vez mais universidades públicas e privadas passaram a usar. É uma prova gigante, uma das maiores provas do mundo, tem em média de 8 a 9 milhões de inscritos. A logística é muito louca, porque temos um país continental, em que você começa uma prova impressa simultaneamente em São Paulo e no Amazonas, em lugares que você precisa levar a prova de barco, atravessando rio. Certamente é uma das provas mais difíceis do mundo em termos de logística. O vazamento do Enem em 2009, claro, colocou tudo em xeque, mas desde então não teve mais nenhum outro episódio. Mas vazamento de prova não tem sido mais discutido porque o Enem reforçou muito a segurança. E isso tem um custo muito alto, que ninguém sabe quanto custa realmente porque não é revelado. Quando você manda uma prova no barco, você tem que ter segurança em volta. Existe uma discussão de o que dá para fazer diferente com menos custo: vale a pena ter esse custo todo? Não seria melhor fazer o Enem regional? Fazer a prova em vários momentos do ano?
LEIA MAIS
Confira a primeira edição do Fale, blogueiro, com a jornalista Giuliana Miranda, do blog Ora Pois. Para ela, Portugal deixou de ser lado B da Europa para virar referência no turismo e em qualidade de vida.
Confira a segunda edição do Fale, blogueiro, com o jornalista Salvador Nogueira, do blog Mensageiro Sideral. Para ele, o Sirius é a exceção que dá certo na ciência brasileira.
Confira a terceira edição do Fale, blogueiro, com o jornalista Marcos Nogueira, do blog Cozinha Bruta. Para ele, a palavra gourmet deveria ser extinta da Terra.
Confira a quarta edição do Fale, blogueiro, com a jornalista Lívia Marra, do blog Bom pra Cachorro. Para ela, pet pode ser como um filho, mas deve-se evitar exageros.
Confira a quinta edição do Fale, blogueiro, com o jornalista Reinaldo José Lopes, do blog Darwin e Deus. Para ele, chegada dos europeus na América foi primeiro 7 a 1 da história.
Confira a sexta edição do Fale, blogueiro, com o jornalista Jairo Marques, do blog Assim Como Você. Para ele, tratar pessoas com deficiência com naturalidade, e não coitadismo, é fundamental.
Confira a sétima edição do Fale, blogueiro, com o jornalista Bruno Molinero, do blog Era Outra Vez. Para ele, é preciso encantar a criança para ela preferir um livro ao YouTube.

sexta-feira, 18 de maio de 2018

EUA premiam Moro pelos serviços prestados... aos americanos



EUA premiam Moro pelos serviços prestados... aos americanos
Amorim: o Golpe é pra fazer o Brasil voltar a ser um quintal
do Conversa Afiada
publicado 17/05/2018
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Em 2010, a América Latina deixava de ser um quintal dos EUA. Como ousa? (Reprodução/The Economist)
Conversa Afiada reproduz trechos da entrevista concedida por Celso Amorim, o melhor Chanceler do mundo, a Brian Mier, do Brasil Wire:
Quero perguntar sobre um conceito chamado "soberania", porque eu não acho que a maioria das pessoas nos Estados Unidos dê muita atenção à palavra. O que é soberania, por que ela é importante e o que o Governo Lula fez para aumentar a soberania brasileira?
(...) É a capacidade de determinar o seu próprio destino - até certo ponto, porque todos vivem no mundo e as circunstâncias do mundo também têm sua influência. Mas é, pelo menos, ter a capacidade de conduzir o seu próprio país de uma forma que corresponda aos interesses do seu povo. Basicamente, acho que é isso o que "soberania" significa. Que você pode enfrentar pressões externas de uma forma que não seja submissa. (...) Os Estados Unidos estão muito conscientes do que é soberania, porque quando uma empresa chinesa resolveu comprar uma importante companhia americana de tecnologia, o Presidente Trump decidiu vetar o negócio. Então soberania é isso. Existem alguns ativos que são essenciais para a sua capacidade de determinar o seu próprio destino, levando em conta as circunstâncias do mundo. Eu acho que isso é o que queremos. Para fazer isso, é claro que você precisa de uma política externa que seja capaz de defender seus pontos de vista e lutar por essa política, permitindo que você enfrente qualquer possível ameaça.
Como você acha que a estratégia do governo Lula para a questão da soberania diferiu, por exemplo, das de Fernando Henrique Cardoso ou Itamar Franco?
É muito simples. Vou dar um exemplo, porque acho melhor exemplificar do que tentar definir. A atitude de Lula em relação às reservas de petróleo nas quais ele estabeleceu o protagonismo da Petrobras é um caso de preservação de nossos recursos naturais. Outro exemplo foi a sua autorização para o desenvolvimento de um submarino movido a energia nuclear, capaz de vigiar toda a nossa costa (...) Eu diria que na política externa, na qual eu estava mais ativo, o Governo dele contribuiu para construir um mundo multipolar, no qual cada país não está necessariamente sujeito à hegemonia de outro. Como ele fez isso? Eu exemplificaria com a integração da América do Sul, que agora está sendo abandonada pelo atual Governo, porque mesmo que o Brasil seja grande, não é grande o suficiente para enfrentar os grandes blocos como os Estados Unidos, que são um bloco em si, a China, que é um bloco em si, ou a União Europeia. A integração da América do Sul foi importante, assim como foram as relações com outros países do Sul, inclusive na África e na Índia (...) e também a nossa contribuição para a criação do BRICS, que de alguma forma dão maior equilíbrio às relações internacionais (...)
Como esta postura difere das políticas do governo de Michel Temer?
Em quase todos os aspectos, o Governo Temer está fazendo exatamente o oposto. Internamente, está tomando medidas que aumentam a desigualdade em vez de diminuí-la, como as novas leis trabalhistas e o congelamento de gastos em Saúde e Educação por meio de uma emenda constitucional, algo que é absolutamente inédito em qualquer lugar do mundo, até onde eu sei. E externamente há uma política que nos melhores momentos não é nada e nos piores momentos está fazendo coisas como contribuir com a desintegração da América do Sul, por meio da desativação da Unasul, que foi uma grande conquista durante o Governo Lula, e por não ter qualquer iniciativa em relação aos BRICS e outros grupos como o IBAS (Índia, Brasil e África do Sul). Eles estão reduzindo nossa presença em todos os lugares - mesmo em relação a Palestina e Israel, por não ter uma atitude independente. Eles têm uma atitude muito submissa que tende a dar mais importância a um ou outro lobby interno do que aos interesses reais da paz no mundo. Então, esses são alguns exemplos, mas eu poderia acrescentar outros, como a permissão para a Embraer fazer uma fusão com a Boeing - é claro que todos sabem quem vai dominar o resultado dessa fusão.
Durante o período em que você foi Ministro das Relações Exteriores para o Governo Lula e Ministro da Defesa de Dilma Rousseff, quais foram as políticas implementadas pelo Brasil que, na sua opinião, agradaram o governo dos EUA? Quais foram as políticas que podem tê-los irritado?
Em primeiro lugar, nossa preocupação não era agradar ou desagradar a quem quer que fosse. Nossa preocupação era buscar nossos próprios interesses em solidariedade a outros países, especialmente em nossa região e na África. Ao fazer isso, podemos ter freqüentemente desagradado os Estados Unidos. (...) Mesmo quando desagradamos os Estados Unidos, não fizemos isso para irritá-los - estávamos buscando nossos interesses. E acho que isso foi, em grande medida, entendido. Tanto que, quando, por exemplo, Bush convocou a Cúpula do G20, não tenho certeza se foi a primeira, mas uma das primeiras pessoas a quem ele chamou foi o Presidente Lula, dizendo: “Estou pensando em chamar essa Reunião do G20 para que os países importantes possam discutir como lidar com a economia mundial após a crise do Lehman Brothers.” Este é um exemplo.
(...)
Fiz essa pergunta porque, como sabemos, houve um Golpe de Estado no Brasil em 2016.
Sim.
E alguns dos fatores que levaram ao Golpe foram a Operação Lava Jato e a paralisação da indústria da construção, que levou a 500 mil demissões imediatas e a uma queda no PIB em 2015. E sabemos que a Lava Jato é uma operação conjunta entre o Departamento de Justiça dos EUA, o FBI e a Força-Tarefa de Curitiba liderada por Sergio Moro, que, de acordo com uma ação apresentada pela defesa de Lula em março de 2018, se baseia ilegalmente em comunicações entre Judiciário brasileiro e o Departamento de Justiça dos EUA.
Sim.
Então, sabemos que houve o envolvimento dos Estados Unidos em eventos que levaram ao Golpe e à prisão de Lula. Que razões os Estados Unidos teriam para se envolver em tudo isso?
Posso dar um exemplo muito simples a partir do velho provérbio chinês de que uma imagem vale mais que mil palavras. Havia uma capa da edição americana da Economist que mostrava um mapa de cabeça para baixo das Américas. A América do Sul estava no topo e o resto estava abaixo. O título do artigo principal era "O Quintal de Ninguém". Eu acho que quando as pessoas de Inteligência [dos EUA] tiveram uma de suas reuniões regulares, que eu suponho que eles têm, apesar da falta de coordenação às vezes, eles viram aquele mapa dizendo que a América do Sul e a América Latina não são mais o quintal dos Estados Unidos e estão promovendo avanços como os BRICS, como reuniões independentes com países árabes, tendo reuniões por conta própria, criando a Unasul sem o patrocínio dos EUA ou da Europa ... Eu acho que todas essas coisas de repente levantaram as sobrancelhas em Washington e alguém disse 'bem, nós temos que recolocar isso nos trilhos, colocar esses caras de volta ao lugar a que eles pertencem, que é o quintal.” Não estou dizendo que tudo foi planejado pelos Estados Unidos. É muito difícil dizer e não tenho provas disso, mas certamente houve essa cooperação, que foi mencionada até mesmo por Kenneth Blanco, do Departamento de Justiça. Ele disse que havia uma cooperação muito informal com o Judiciário no Brasil, o que é um escândalo, porque se você tem acordos com a Justiça, eles devem seguir as regras. E seguir as regras implica passar pelos canais apropriados. (...) Você acha que eles espionaram Dilma porque havia o risco de um governo comunista? Não havia nada nesse sentido. Eles espionaram porque estavam interessados ​​na indústria do petróleo e, mais tarde, na indústria da energia nuclear. (...) O objetivo real da investigação Lava Jato é tirar de cena não só a Dilma e não apenas o Lula como pessoas, mas também um projeto, um projeto para um país no qual a soberania ocupava um lugar central.
Lula foi preso há 38 dias por acusações sem provas. Você acha que haverá eleições livres este ano?
(...) As pesquisas mostram que o candidato preferido pelo povo brasileiro é Lula, de longe. Ele vence em todos os cenários no segundo turno, e no primeiro turno ele tem o dobro de votos do segundo colocado. Por isso, acho que todos os nossos esforços devem começar no sentido de possibilitar que Lula seja candidato. Eu sei que é uma batalha difícil, especialmente do ponto de vista judicial, porque isso não aconteceu de uma vez só. É um processo que passou pelo impeachment da Presidenta Dilma, mas percorreu todo o caminho com foco em Lula. Nesta semana o Juiz Moro - é uma coisa incrível até do ponto de vista das aparências -, o homem que conduziu a investigação e a condenação de Lula, está recebendo um prêmio na Câmara de Comércio Brasil-EUA. Isso é uma coincidência? Eu não sei. Na política eu não acredito em coincidências, tudo está relacionado de alguma forma. Então, acho que esse é o fato mais revelador sobre o que está acontecendo no Brasil. O juiz está sendo recompensado pelo bom serviço que prestou. Eu não estou dizendo que ele recebeu dinheiro ou algo assim, mas ele está sendo reconhecido como o homem do ano porque foi capaz de colocar Lula na prisão. Em latim, há uma expressão, et quid prodest, "quem lucra com isso". Então, eu acho que o prêmio dá a resposta.
(...)

terça-feira, 15 de maio de 2018


O ATUAL NIILISMO SERÁ A CALMARIA QUE ANTECEDE A EBULIÇÃO?

Ao que se deve o atual niilismo, que permeia a postura dos brasileiros diante de tudo? 

A resposta a tal indagação pode desvendar os mistérios que resultam na apatia do comportamento social dos brasileiros neste ano eleitoral de 2018. 

O atual niilismo social se traduz numa descrença completa no que está posto e numa visão pessimista sobre o que virá; decorre de uma sucessão de governos de orientações políticas mais à direita, centro ou à esquerda, que se alternam no poder e terminam sempre por igualar-se nas suas práticas político-administrativas.

Nada mais keynesiano do que um governo neoliberal na crise econômica; nada mais neoliberal do que um governo keynesiano na ascensão capitalista. 

Sob a égide do capital os governantes, tais quais os surfistas, equilibram-se nas ondas, mas não têm a menor condição de modificar a intensidade e natureza destas mesmas ondas. Não governam, mas são governados por uma lógica ditatorial que lhes é subjacente e que os enquadra em posturas administrativas ou legislativas que pouca ou quase nenhuma diferenciação mostram no ato de governar ou legislar.
Por seu turno, o indivíduo social transformado em cidadão espoliado pelo sistema capitalista e pelo Estado, ente jurídico que ingenuamente acreditou ser seu protetor acima da forma de mediação social estabelecida (a produção de valor como forma de sustento individual e coletivo), sente que o que temos como estrutura social está absolutamente decomposto, mas não tem esperança e crença em algo que o substitua a contento.

Qualquer pesquisa de opinião pública que se faça no sentido de se apurar o conceito dos políticos indicará a completa decepção com relação a todos aqueles que os representam nos dois segmentos políticos, o administrativo e o legislativo. 

O processo eleitoral, como já escrevi noutros artigos, traduz-se na escolha pelo cidadão dentre aquilo que já lhe foi previamente escolhido. Recentemente, num programa da Globonews, causou risos e obteve a concordância dos jornalistas um comentário no sentido de que a eleição seria como um um restaurante no qual se pode escolher qualquer prato, desde que conste do cardápio. 

É graças a isto que o voto (no Brasil, obrigatório) é o exercício de legitimação pelo cidadão de um poder que lhe é estranho e opressor. Daí a Justiça Eleitoral gastar milhões de reais para incutir na cabeça de todos que o voto é um direito. 

Se um dia a reivindicação do voto para todos e com o mesmo peso representou um avanço diante do absolutismo feudal (no qual um monarca a quem se atribuía poderes divinais representava o Estado e a Lei acima de qualquer súdito), disto não decorre automaticamente que o processo eletivo democrático burguês seja verdadeiro aferidor da soberania da vontade popular, nem que ele resulte em benefícios para o povo. 

O processo político-eleitoral, qualquer que seja a estrutura política governamental, é corrupto e corruptivo até a medula.

Entretanto, é difícil para o cidadão comum achar a saída. 

Noutro dia, participando de uma conversa de um grupo heterogêneo de pessoas que haviam se reunido por acaso, e que não me conheciam ou ao meu passado, deparei-me com opiniões que devem grassar em muitos outros grupos de igual formação. 

Aqueles de pensamentos mais conservadores (e que pareciam ser a maioria do grupo) externavam a sua satisfação em atribuir o tradicional caos brasileiro, agora acentuado, ao desgoverno do PT e à corrupção; já aqueles de pensamentos mais à esquerda ( que pareciam estar em minoria) tentavam justificar o caos fazendo uma analogia aos governas militares e aos governos civis de Sarney, Color de Melo e FHC, que em nada melhoraram a vida do brasileiro comum, além de, ao mesmo tempo, apontarem as melhorias sociais sob os governos Lula e Dilma.

Eu, que permanecera calado observando o desenrolar daquela conversa cujo teor é hoje muito comum, não pude deixar de manifestar a minha opinião no sentido de que as duas vertentes de pensamento estavam equivocadas.

Afirmei que qualquer governante que venha a assumir a direção político-administrativa do país estava previamente submetido às intempéries atuais da economia que é quem governa, cabendo a estes apenas o seguinte:
a) administração acadêmica da condução da economia nas suas correntes neoliberal, keynesiana, ditatorial estatizante, teocrática, etc; 
b) administração da escassez de recursos; 
c) administração da impagável dívida pública e seus juros escorchantes;
d) administração do déficit previdenciário, cada vez maior por força do desemprego estrutural;
e) repressão caótica da violência urbana causada pela desestruturação social, fruto da baixa renda e do desemprego;  
f) implementação cada vez maior da cobrança de impostos a uma população exaurida, numa tentativa inglória de assegurar maior governabilidade. 

Diante de tal interferência, todos se voltaram contra meus argumentos, afirmando que, já que eu era contra tudo e contra todos, apontasse a saída.

Não queria eu aprofundar a discussão sobre tal tema num sábado de carnaval, pois isto envolveria uma avaliação mais complexa de todos os fatores históricos e atuais do desenvolvimento capitalista que agora encontrou a seu ponto de declínio irremediável. 

Minha reticencia em discutir ocorreu porque minha filha havia me pedido para evitar azedar o ambiente, não entrando em qualquer provocação nem levantando as minhas estranhas teses. 
Então, para encerrar o papo e poder fugir de uma discussão que se prenunciava acalorada e infrutífera (principalmente sob os efeitos etílicos), disse apenas que, para resolver o problema, teríamos de abolir o dinheiro. 

Diante do estupor de todos diante daquela assertiva que mais parecia uma heresia fora de cogitação, a reação grupal foi a de que eu estava a propor algo fora da realidade, impossível de se concretizar e, portanto, fora da discussão.

Assim, como um herege diante de crentes, pude me levantar e sair da roda para tomar uma caipirinha e comer uma pesada feijoada, mas bem mais leve do que as concepções preconcebidas e equivocadas das duas correntes que formavam a discussão que eu presenciara. 

O DECEPCIONANTE LEGADO DAS ADMINISTRAÇÕES DE ESQUERDA NA AMÉRICA LATINA – Nada é mais penoso quando se quer atingir um objetivo do que a falta de meios para tanto. 

É como se jogar um jogo de futebol com regras parciais que beneficie apenas um dos contendores, do tipo: 
a) qualquer falta cometida em qualquer lugar do campo seria pênalti para o mandante, enquanto que somente seria marcado pênalti para o visitante quando a falta fosse cometida dentro da pequena área; 
b) cada gol valeria por dois para o mandante, mas dois gols valeriam apenas um gol para o visitante; e assim por diante.   

Podemos adequar a metáfora acima à administração socialista de um país cuja mediação social seja feita a partir das categorias capitalistas.

O caso mais flagrante e atual da ingovernabilidade de um pais com norte socialista e mecanismos capitalistas de mediação social é a experiência da Venezuela. 

Trata-se hoje de um país ditatorial, militarizado, estatizante, pretensamente anticapitalista e anti-imperialista, mas que, contudo, baseia a sua vida social em critérios capitalistas. Ou seja, lá estão presentes todas as categorias capitalista fundantes, como o trabalho abstrato, o mercado, as mercadorias, o dinheiro (espécies do gênero forma-valor), e seus instrumentos de apoio como Estado e suas instituições, a política, etc. 
Ora, o principal comprador do petróleo Venezuelano eram os Estados Unidos, seu inimigo nº 1 declarado; e, como ocorre com todos os países exportadores de matéria-prima, as oscilações do preço do petróleo (sua mercadoria preponderante) no mercado determinam a capacidade financeira do governo e da economia como um todo. 

A Venezuela é um exemplo vivo do que estamos falando, e tem tudo para cair nos braços da capital liberal num futuro breve, provocando ainda mais a descrença em qualquer alternativa fora do capitalismo.  

A dependência de tudo e de todos à economia e seus dissabores, sem que aparentemente possamos dela nos livrar (para muitos viver fora da economia mercantil é como se querer viver sem tomar água, p. ex.), é a causa do niilismo atual. 

É como se, diante de impossibilidade de saída social coletiva, cada um tomasse a iniciativa de salvar a própria vida (cada um por si e Deus por todos...), inexistindo força gregária social capaz de unir todos os sentimentos de frustrações e alternativas sociais emancipatórias num movimento indestrutivelmente forte.
Por Dalton Rosado

Neste sentido, as administrações petistas e outras de igual teor na América latina (vide as medidas de governo adotadas na Nicarágua pelo outrora revolucionário sandinista e atual presidente Daniel Ortega) representaram um retrocesso na luta do povo por franquias sociais emancipacionistas. 

Mas tal niilismo não há de durar para sempre, podendo o marasmo se transformar em revolução verdadeiramente emancipacionista.